Olhos embotados, displicentes, mornos, tombados, sem lascívia! Pele desbotada que não vive o ardor de outrora, o espírito em seu estado crepuscular... Padece a vida em seus retalhos a cada suspiro, a cada escarro, a cada trago desesperado que anseia por descanso...
_ Por favor, uma pinga... Clemente balbucia... Toma sua cachaça.... “Por favor, outra...” Sua fala ainda insípida... Pesados movimentos faciais... Mente imbuída pela reflexão de uma boa ordinária, líquido safado, viscoso, ardente... Sua atenção se atém na visão do copo... Aspecto desanimador, se vê no vazio do recipiente, no vácuo da ausência de palavras... “Mais outra, ou melhor, por que não a garrafa?” Garrafa e copo na mesa. Mais um trago que se esvai pela carne morna. Pôs-se a espiar a botelha... A consome em goladas estrondosas, raivosas... Se esvai a garrafa se esvai parte de si... Incrédulo assiste a si mesmo em sua penúria íntima... Enfim tropeça e em seu socorro sua agonia infinda. A língua ferina de sarcasmos incansáveis a lamber suas chagas, suas feridas inevitavelmente expostas... Rasteja pelo chão crepuscular, fosco, gélido que lhe suga os ínfimos resquícios de sanidade... Respirar tísico, preguiçoso, vagabundo... Ergue-se vagaroso, mão no bolso, alguns trocados, um bar na esquina lhe inspira alguns passos... Se apóia no que lhe resta, esmaecido, rígido, esquálido, avança contra o balcão em regozijo perverso. ‘Mais uma pinga”. O corpo depois de muito esperar mais uma vez arqueja, respira a custo, leproso que se desfaz a cada pinga, a cada arfar incessante por finitude. Enfim se foi, enfim se erguem as garras do medo derradeiro! Apenas se faz escuro, o ultimo instante de luz esvaneceu-se. A foice elevou-se ao píncaro de sua sabedoria sobre a dor de um bêbado estropiado, roto, desventurado... Só lhe resta a carne, mas será dos ratos, dos vermes. Portanto nada mais a dizer, pois que fique assim, até que o esqueçamos, caro desconhecido de minhas lembranças mais vivas e obscuras...